quinta-feira, 19 de março de 2026

Lançamento - Ilha de ossos

 Ilha de ossos é o meu décimo primeiro livro. Um conjunto de 32 poemas inéditos. 




Apresentação

A poesia habita o limite da palavra, portanto é ofício do poeta se equilibrar sobre a linha do indizível. Em Ilha de ossos, Clóvis Da Rolt demonstra, uma vez mais, sua capacidade para essa experiência limítrofe exigida pelo fazer poético. Neste volume, o autor recupera a dicção presente em livros anteriores, sobretudo A orientação das serpentes (2016) e Um arpão entre duas bocas (2018), e imprime novo fôlego à linguagem que caracteriza os melhores momentos de seu percurso autoral.

Nos poemas de Ilha de ossos, Clóvis investe novamente, e com êxito, no poder da metáfora e da sugestão, confiando não apenas na força evocativa da palavra, mas também na autonomia do leitor para a construção de sentidos. Não há que buscar, aqui, uma poética cristalina, afirmativa ou denotativa, que desvele de imediato os seus significados aos olhos apressados destes nossos tempos. Pelo contrário, seus textos operam no âmbito da alusão, da evocação e da simbolização, exigindo uma leitura atenta à poesia dos poemas, à construção de imagens e à invenção metafórica. Esse esforço de leitura é recompensado por um eu-poético desejoso de “instalar nas nuvens carrosséis felinos” e de inclinar-se “à margem do desabitado”, levando o leitor consigo rumo ao prazer do texto.

Dividida em quatro partes, separadas por imagens e epígrafes que revelam a filiação artística do autor, a obra apresenta em seu horizonte dialógico nomes como Giuseppe Ungaretti, Mihai Eminescu, Wisława Szymborska e Hilda Hilst. É possível especular como, a partir da interlocução com essa linhagem de poetas, Clóvis instila no seu próprio eu-poético certo sentido de revolta e inconformidade com o mundo. Afinal, para ele, “tudo parece devastado” e “é diária a escavação do medo” nesta vida em que “há um despertador bélico / balbuciando a métrica de cada dia”. Mas há, também, como sugere outro poema, frestas de esperança, embora se trate de uma crença desconfiada e esquiva na existência humana: “coleção de renúncias é a vida, / ofício de caminhar na esperança de / que a próxima queda encontre uma rede”.

De fato, essa desconfiança da humanidade e seus sorrisos postiços parece ser uma característica da voz poética presente em Ilha de ossos, em alguma medida cifrada já no título. Há nesta obra de Clóvis uma postura avessa à racionalidade cartesiana que confere aos seres humanos uma ilusão de progresso, domínio e sabedoria que a todo instante esbarra no incompreensível, conforme se observa no belíssimo “Instante místico”:

Alheia à pretensa superioridade

da analítica humana

– oficina de minúcias que

divide nuvens em cirros e nimbos –,

uma borboleta tremula meu espanto:

tu jamais pousarás numa flor.

Pelo golpe da linguagem, o edifício das pretensas grandezas humanas desmorona de pronto, desnudando os limites dessa percepção de mundo. Trata-se, pois, de um fazer poético que almeja aquilo que há de efetivamente poético e irredutível no humano. Por isso, em “Epifania”, essa voz poética clama ao leitor para que o examine por qualquer ângulo e lhe assegura: “ali estarei. Despido de toda ciência, sem técnica / ou muralha, entregue a ti feito poesia em febre”.

No conjunto dos poemas, esse chamado à interlocução também pode ser lido por outro – ou por múltiplos outros – viés, pois em seus momentos mais líricos esse eu-poético evoca repetidamente a figura de um amante. Ainda assim, não irrompem imagens idealizadas ou próximas de qualquer romantismo banal, uma vez que a contenção e a sobriedade estilística comandam essa poética, depurada e desbastada com mão firme. Em razão disso, o diálogo com o leitor se entrecruza com o chamado à pessoa amada, demarcando uma proximidade sempre distante, sempre intransponível. Desse ponto advém uma característica que atravessa o livro todo, uma espécie de desalentada expectativa, que confere ao texto alguns de seus mais belos voos líricos, como a imagem do “pampa semeado de distâncias / no vestíbulo dos teus olhos” ou o anseio de “Buscar o pulso de outro coração, / mas esbarrar no músculo / instalado no anônimo de si”. Afinal, o desejo desse eu-poético é simples, mas talvez irrealizável, visto que esbarra sempre no insondável desejo alheio: “só quero que nossos pés se abracem em compasso”.

Desnecessário dizer, não se trata de uma poesia de imagens feitas. “É um poema. O que quiseres ele será”, afirma o eu-poético. Clóvis Da Rolt, por sua vez, afirma-se novamente com uma poética refinada, não raro desconcertante, que explora as curvas do significante e descobre o que há por trás das palavras, na sombra, esperando enunciação. Tal gesto demanda, mais do que esmero e rigor no trato com a linguagem, uma crença profunda no potencial do leitor para agarrar-se à linha do indizível e nela descobrir o que há para além do limite da palavra.

André Tessaro Pelinser

Professor universitário (UFRN), pesquisador em literatura, escritor


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Instante místico

Na tarde exaurida,

grua de inércia,

o tédio invadindo foguetes elásticos,

aguardo caírem sobre minha vida

algumas gotas de suficiência lírica.

Alheia à pretensa superioridade

da analítica humana

- oficina de minúcias que

divide nuvens em cirros e nimbos -,

uma borboleta tremula meu espanto:

tu jamais pousarás numa flor.



Desapego

Na penitente noite liminar,

suspensa vogal em escorço,

vens estancar a torrente do medo

nas cinzas de uma catedral prolongada.

Outra vez reluto em abdicar do silêncio,

estão desculpadas as aves combalidas,

na raiz do verso o pavor corrompe fecundações.

Peço que as palavras-sesmarias 

usurpem inconclusivos féretros:

a vida declarou-se matadouro antigo.






Sentir é inominável - Lançamento em Bento Gonçalves-RS

O lançamento do livro Sentir é inominável ocorreu no no dia 03/05/25, em Bento Gonçalves-RS. O lugar escolhido foi o Cuca e Marmellata, no Vale dos Vinhedos. Um momento único para celebrar encontros, afetos e sensibilidades.